Mina

 

 

Manhã calma de primavera.

Andorinhas desenhavam arabescos na sua incessante procura de alimento. O azul quase transparente avivava os recortes da montanha tingida com manchas de verde.

Na varanda do nono andar de um dos prédios da periferia da cidade, um ancião, cabelos ralos, acinzentados, ventre proeminente, fazia o seu banho diário de sol. Falta de vitamina D, de cálcio, risco de fractura de coluna, da anca.

“Apanhe sol, de preferência de manhã, caminhe um pouco e tome este suplemento de cálcio que lhe vou receitar” – sorriu da sua ingenuidade. Pensava que só as mulheres, na menopausa, ficavam carentes de cálcio e vitamina D.

Virou-se de costas para o sol, fruiu a sensação de calor naquela manhã fresca, fechou os olhos e cabeceou. Era o dia de os netos irem almoçar com os avôs. O mais velho com uns pelos incipientes a ornarem-lhe o lábio superior, a contas com modificações de voz, iria crivá-lo de perguntas e, a muitas delas  teria que confessar a sua ignorância. Remetê-lo-ia para a Wikipédia ou para fontes mais específicas. O mais novo lembrar-lhe-ia pela enésima vez a projectada excursão à mata dos castanheiros…

Sonolento, à procura de apoio para a cabeça, rodou no assento expondo um flanco ao sol.

Nas obras  da nova circular da cidade, um tiro de pedreira explodiu com fragor.

Rolando para o chão, o ancião gritou “Mina!”

Desperto, olhando a varanda do seu nono andar, guindou-se para a cadeira, apertando as fontes entre as mãos trémulas. Por entre as árvores, o local do rebentamento era marcado por uma coluna de fumo negro, idêntico ao que anunciara a morte de quatro dos militares da sua companhia, lá muito longe, lá muito ao Norte.

De olhos vagueando pelo azul límpido do céu, questionou desalentado:

- Até quando, Senhor? Não basta já?

(J.Eduardo Tendeiro, Angola 62/64 CCE 306)

 

publicado por gatobranco às 11:19 | link do post