A Apanha do Estrume

 

 

 

 

 

Aquela emboscada nocturna foi mais longe do que o habitual. Largados das viaturas, tivemos de andar quilómetros a pé até ao local pré definido. Felizmente que durante a noite nada de anormal se passou, e de manhã regressámos ao local acordado com as viaturas, andando mais quilómetros, pois não poderíamos regressar pelo caminho de ida. Era perigoso.

Chegados ao acampamento, tomámos o café, e o nosso pelotão estava livre!

 

Eu cansado, estendi-me sobre a cama, adormeci e creio que sonhei…

 

O tempo estava na verdade melhor no dia seguinte, e, manhã cedo, lá fomos nós, o pai de gadanha e engaço ao ombro e o Toino com as duas varas, em direcção à bateira.

O dia não era de chuva, mas a manhã estava fria. Notou-se logo ao meter os pés na lama para alcançar a bateira. Soltada esta do moirão aí vamos nós para Esteiro do Oudinot. Salto para a margem com a cirga na mão, estico-a ponho-a ao ombro, e vá de puxar a bateira. São dois quilómetros de extensão, contra a maré. Chegado ao fim é recolhida a cirga, entro para a bateira, pegamos nas varas e vá de atravessar a cale, sempre com muita atenção, não vá aparecer algum navio, que nos atrapalhe a manobra. Chegados ao fundão, vá de “paijar” com as varas como se fossem remos, dado que a cale era muito funda e as varas não atingiam o fundo.

Passámos sem problemas e da outra banda voltámos a empurrar a bateira com as varas, até que chegamos à marinha, amarrámos a bateira e toca de começar a trabalhar. O pai do Toino a gadanhar o estrume e o Toino sempre com o olho à viva, (não fosse aparecer outra cobra) ia-o juntando e enfeixando na corda. Quando o molho estava com a quantidade suficiente era amarrado. O Pai puxava a corda de um lado e o Toino do outro, apertavam-no, davam um nó, o pai ajudava a pô-lo na cabeça do Toino, e aí vai ele correndo com o molho de estrume à cabeça, sempre a pensar nalguma cobra…

Este serviço repetia-se vezes sem conta, até que a bateira estivesse carregada.

Depois era o regresso pelo Esteiro do Oudinot, o carro dos bois à espera, o descarregar da bateira…

Este serviço era executado dias sem conta, sempre que o tempo o permitisse, até que houvesse estrume suficiente, para as camas do gado durante o inverno, que estava a chegar.

O tempo ia piorando. O vento e as chuvas anunciavam o tempo que aí vinha, a chegada do inverno. Já havia dias de chuva, que permitiam ao Toino ler uns bons pedaços do livro que andava a ler, até ser “acordado” do sonho que a leitura lhe provocava, por ordens do pai que dada a ordem continuava na sua leitura:

- Oh Toino vai dar uma gabela de palha aos bois, ou;

-Dá uma gabela de erva à vaca.

O Toino deixava a leitura, e ia confirmar a ordem junto do pai, não que não tivesse ouvido bem, mas para confirmar qual o livro que o pai estava a ler. Punha o olho de lado, e lá ia cumprir a ordem.

De regresso, ainda se atreveu:

- Olha lá oh pai, quantas vezes já leram esse livro? (era o Mártir do Golgota) …

- Não sei, mas gosto muito dele. Tem aqui uma personagem que me faz pensar: e continuou; era o cantor da Galileia, e ia fazer serenatas a Madalena a pecadora. Chamava-se Boanerges. Se um dia tiver um neto gostava que lhe dessem esse nome…

 

E lá continuavam, cada um com a sua leitura, até que da casa do forno se ouviu a vós da mãe:

- Eh pessoal. Vamos à janta que o comer está na mesa…

 

Acordei com o ruído do pessoal que se dirigia para o almoço, levantei-me e fiz o mesmo.

 

Ângelo Ribau CCE 306

Angola 62/64

publicado por gatobranco às 09:52 | link do post