ÂNGELO RIBAU TEIXEIRA

                                                                

 

                Faleceu o Ângelo Ribau Teixeira. Partiu para Deus, para uma bem merecida paz e bem-aventurança eterna.

                Era um homem de bem, grande simpatia, riso franco, muita solidariedade e alma grande.

                Conhecemo-nos há quatro anos, em meados de 2009, por via eletrónica. Ele enviou-me uma mensagem a pedir uma informação sobre o meu livro “Angola – As Brumas do Mato”. E desde então, o relacionamento eletrónico nunca mais terminou. Com grande frequência ele enviava mensagens, diaporamas, pequenos vídeos sobre vida e cultura, história e arte, ciência e natureza, imagens de paz e de guerra, temas de otimismo e solidariedade, de reflexão e de humor…

                Mais tarde, há três anos, teve a gentileza de me oferecer o seu livro “Retalhos das Memórias de um Ex-Combatente” (Angola 1962-1964) em que fala sobretudo das aventuras e desventuras do seu pelotão e da Comp. Caç. Especiais 306, integrada no Batalhão Caçadores Especiais 357.

                Logo no início impressionou-me que ele, parafraseando um conhecido romance, dedicasse aquelas páginas “àqueles que lutaram mas, por eles, nem os sinos dobraram”.

                Li-o de fio a pavio, com um enorme interesse. Tanto mais que em muitas páginas quase me parecia que estava também a reviver as picadas e as noites, sustos e medos, momentos e paisagens dos vários pelotões e companhias do meu Batalhão – o Batalhão Caçadores 1930. Há páginas de um realismo dramático, muito sofrimento e pormenor.

                Com uma grande emoção vi na pág. 4 uma dedicatória já mais especial aos seus pais. Um pai “marmoto e agricultor, seco de carnes, mas com ossos duros de roer, temperados pelo sal das águas da Ria” de Aveiro, na Gafanha da Nazaré. E uma mãe “doméstica e agricultora”, mas com grande fé em Deus e amor aos filhos. E foram estes pais, heróis no trabalho e na dedicação do dia a dia que “tiveram quatro filhos na tropa ao mesmo tempo, três dos quais na Zona de Intervenção Norte”. A grande fé de sua mãe “foi compensada pois todos regressaram sãos e salvos”.

                No prefácio, o seu grande amigo e companheiro de armas, J. Eduardo Tendeiro, da Covilhã, evoca o “stress pós-traumático de guerra que tantas perturbações origina pela vida fora” (pág. 6). E é precisamente para exorcizar esses fantasmas da guerra que o Ângelo Ribau Teixeira, como tantos outros ex-combatentes – entre os quais me incluo – descarregou para o papel essas noites e pesadelos, rebentamentos de minas e mortes, sedes e cervejas, negruras e picadas envolvidas em pó, sonolências e febres, emboscadas e morros, tudo isso vivido e revivido no quotidiano da guerra colonial.

                Ao receber a triste notícia do falecimento do Ângelo Ribau Teixeira todas essas páginas do seu livro – tão duras e tão reais – desfilaram na minha mente, ao mesmo tempo como pesadelo e alívio. E foi também um certo alívio que o Ribau Teixeira deve ter sentido ao passar para o papel as suas memórias de guerra. Mas elas são memória futura de toda uma geração que partiu e penou em terras africanas, em tempos de ditadura.

                Agora, definitivamente na Pátria Celeste, paz para o Ribau Teixeira, junto de Deus.

                Carvalhos, 2 setembro 2012

                Manuel Leal Fernandes

publicado por gatobranco às 17:22 | link do post