Um dia "calmo"

Um pelotão fora era um dia de tensão e como praticamente todos os dias havia um pelotão em acção, o stress era contínuo.

A companhia tinha quatro pelotões operacionais. Quando um saía para uma missão, ficava outro “em prontidão” preparado para uma acção de socorro ou qualquer outra missão específica.

Com este esquema estavam sempre dois pelotões de folga. De folga era um eufemismo que poderia significar dormir o dia inteiro, tratar da roupa – tarefa árdua – escrever longas cartas ou um simples “bate-estradas”, os famosos aerogramas que o Movimento Nacional Feminino distribuía a mãos cheias, que o comando da companhia também fornecia, mas que tinham pouco uso considerando o tempo que demoravam a chegar ao destino. Daí o nome.

Dos que ficavam, alguns eram escalados para serviços de apoio ao acampamento: abastecimento de água, limpezas,  apoio à cozinha, pequenos serviços de manutenção daquela ilha encalhada próximo da fronteira norte de Angola, a casa que detestavam, mas por absurdo os acolhia e lhes conferia algum conforto.

Naquele dia um pelotão saíra cedo, com ração de combate para o dia. Tinha por missão patrulhar a estrada que ligava o acampamento à “via” principal, S. Salvador/Cuimba, procurar vestígios do IN e garantir que não tinha havido implantação de minas anti- carro, as famigeradas minas que tantas baixas causavam e desmoralizavam as NTs. Recolheriam ao acampamento ao pôr do sol.

Na “sala” da “casa dos sargentos” o sargento de transmissões olhava abstracto para um pequeno livro aberto à sua frente. Com uma dotação de rádios emissores- receptores de campanha inadequados às condições de terreno e tipo de missões que deveriam servir, preocupava-se.

A missão daquele dia não era das piores do ponto de vista das transmissões. Decorrendo durante o dia tinha sido possível fornecer ao pelotão dois rádios de AM que seriam inúteis com o por do sol. A estática – milhões de grilos, cigarras, pregos raspando em grades de metal e todo um cortejo de ruídos inqualificáveis -- tornariam impossível a sua utilização. Mas com um esplendoroso dia de sol e porque a acção decorria quase sempre em terreno aberto, as primeiras comunicações tinham sido limpas, eficientes e de bom augúrio, tudo “ó kapa”, sintetizara o radiotelegrafista do pelotão deslocado.

Já era qualquer coisa mas no campo das transmissões avizinhava-se outra crise: as baterias de reserva dos rádios portáteis estavam a acusar o uso e já não recebiam a carga necessária para uma missão mais longa. Do Comando do Batalhão viera uma resposta vaga possivelmente confrontados com o mesmo problema: “Vamos ver isso.” Mais um nesta guerra de problemas. Aliás o grande problema era a guerra em si – a guerra , o problema magno.

Deixando escorrer entre os dedos as folhas dos livro recebido do continente, atacado por um tédio que lhe esvaía forças e vontade própria consentiu que o pensamento voasse milhares de quilómetros e, deleitado, viu a jovem esposa a brincar com o pequenito cuja foto mais recente servia de marcador entre as páginas do livro que não lia.

-- Acorda, pá! – À sua frente o tenente Brás, seu condiscípulo no liceu, olhava-o carrancudo. – Já dei volta à city a ver de ti. A patrulha?

-- Boas notícias, aliás sem notícias. Fizeram o itinerário um sem problemas e estão no dois para os lados de Salvador.

-- Antes isso! – tirando-lhe o livro da frente, inquiriu – Que estás a ler?

-- Ler…. Um romance de Agatha Christie, mas não consigo concentração para acompanhar as deduções do seu Poirot. Já o comecei várias vezes…

Encontrou a fotografia, mirou-a longamente e comentou:

--Belo pimpolho! – acusador, prosseguiu – E é com esta foto entre as páginas do livro que queres criar concentração para o teu Poirot?

-- Era o que tinha  mais à mão para fazer de marcador… -- os  olhos cruzaram-se num diálogo mudo que acabou por verbalizar – e o teu?

-- Mais terrorista que qualquer grupo desses gajos que andam por aí a lixar-nos a vida – o brilho fugaz que se tinha acendido nos seus olhos esmoreceu – Isto é lixado, não podemos pensar nisto a toda a hora, acabamos malucos…

Meneou a cabeça num gesto de assentimento.

-- … Já te lembraste – prosseguiu em voz baixa, como se contasse um segredo ao seu confessor – que amanhã, depois, num dia qualquer, os nossos filhos podem estar felizes a brincar com as mães sem saberem que já são órfãos e elas viúvas?...

Um silêncio de morte envolveu-os. Olharam em redor, evitando que os olhos se cruzassem.

O sargento de transmissões brincou com o livro, tirou a foto do filho das mãos do tenente e depositou-a entre as páginas  como se a depositasse no mais precioso relicário.

-- Raios! – rugiu o Brás – Daqui a pouco estamos para aqui a chorar. Vamos embora daqui.

O outro não reagiu e o tenente insistiu:

-- Vamos lá guardar as lágrimas para a noite. Um homem não chora, muito menos um caçador especial! – A voz, quase no falsete, desmentia a bravata.

Sem combinação prévia encaminharam-se para o bar.

-- Cerveja, comandou o oficial, mas o sargento recusou com uma só palavra: uísque.

-- Dizes bem – Reforçou o pedido para lá do balcão e por ali se ficaram fazendo horas para o almoço. Sobre o balcão improvisado, entre as páginas do romance policial, o serrilhado da fotografia anunciava a sua presença.

Já o segundo uísque se tinha esgotado tragado pelo silêncio que o barman não se atrevia a quebrar quando à porta assomou o cabo radiotelegrafista de serviço.

Vendo-o, o chefe do serviço de transmissões  interrogou-o:

-- Algum azar com a patrulha?

-- Não. Só que estamos a perder a ligação.

-- Tenta avisá-los para que mudem para a frequência de recurso e abre escuta nas duas frequências.

Com um “ó kapa” mal mastigado, o cabo afastou-se. O tenente ficou a olhá-lo e acabou por perguntar:

-- Não vais lá ver o que se passa?

-- Não há mais nada a fazer… Aliás, o meu pessoal é muito eficiente, capaz de resolver estas pequenas coisas sozinho. Confio em absoluto neles. Daqui a pouco passo lá e garanto-te que está tudo em ordem. Vens comigo?

-- Não, prefiro ir até à enfermaria ver se há alguma maca disponível.

Com um piscar de olho para o antigo condiscípulo levantou-se e comandou para o balcão:

-- Aponta a despesa na minha conta. – Abalou apressado esquivando o quico[i] com que o sargento  o pretendia agredir.

No posto de rádio tinham sido abertas as duas escutas e a recepção melhorara o suficiente para se entender que tudo corria com normalidade e procuravam um lugar para “atacarem” a ração de combate.

Considerando que o meio-dia se aproximava e já havia algum movimento para os lados da cozinha, foi-se caminho da casa dos sargentos e por ali ficou até que a comida chegou.

As refeições não eram particularmente um tempo de diálogos. A maior parte empenhava-se em  pôr à mostra as amolgadelas do fundo do prato de lata e contemplava-as como pitonisa consultando vapores sulfurosos.

Depois da refeição chegava a cafeteira do café, oferta do cozinheiro. Utilizando o copo do cantil, chávenas mais ou menos esboceladas – recolhidas numa qualquer sanzala abandonada à pressa pelos seus moradores -- tomava-se o café de fim de refeição e o fumo dos cigarros enevoava o ambiente enrolando-se caprichoso nas grossas traves do tecto.

Recolhidos os pratos e limpa a mesa, alguns dos seus anteriores ocupantes dispersavam-se, outros ficavam. Um baralho de cartas concretizava-se do nada e longas séries de King e sete-e-meio tinham inicio. Outros, poucos, na ponta da mesa mais afastada, escreviam laboriosamente a carta que dias depois seguiria para S. Salvador. Dos que sorrateiros se tinham eclipsado, uns estavam já estendidos sobre a manta-colcha da cama fitando as chapas de zinco da cobertura. Um pequeno grupo dispersava-se pelo acampamento e só um ou outro demandava o bar para “um digestivo” e o acampamento amadorrava-se.

No posto de rádio  o cabo radiotelegrafista assobiava em surdina, talvez buscando inspiração para utilizar o bloco de papel de carta que tinha à sua frente. Correspondendo à pergunta do sargento das transmissões explicou:

-- A patrulha já está a andar. A ligação está limpa, mas mesmo assim tenho a frequência de recurso aberta…

Com uma palmada de felicitação no dorso nu do operador, o sargento prometeu:

-- Se quiseres meter o chico[ii] faço-te um relatório que és logo promovido a furriel…

Com um olhar magoado, raiando a ofensa, o operador respondeu:

-- Porra, meu sargento! Não me rogue tal praga.

A patrulha foi recolhida a tempo de participar no jantar da companhia.

O sol, vermelho e retalhado, considerando a missão do dia cumprida, foi-se.

Lá muito ao norte de Angola a noite abateu-se impiedosa sobre o acampamento daquela Companhia de Caçadores Especiais.


j. eduardo tendeiro

[i]  Pequeno boné de duas palas, uma cobrindo o pescoço e outra os olhos feito de tecido camuflado.

[ii] Continuar na tropa passando ao Quadro Permanente.

publicado por gatobranco às 19:02 | link do post